Não é bem uma moda, mas há cada vez mais produtores a
lançarem vinhos do Porto muito antigos a preços exorbitantes. A última
casa a entrar neste negócio de “joalharia” vínica foi a Quinta do
Vallado, que acaba de colocar no mercado o seu Adelaide Tributa, a 2950
euros a garrafa.
É uma espécie de corrida ao tesouro. Os vinhos finos de
antigamente, os Porto que envelheciam em pipas avinhadas e passavam de
geração para geração, estão a ser comprados por algumas empresas e a ser
comercializados em edições luxuosas com ganhos colossais. Um verdadeiro
negócio da China que tem a virtude de ajudar ao reforço do prestígio do
vinho do Porto. São os vinhos raros e caros que fazem a fama de uma
região.
O precursor deste negócio foi a casa Andressen, que, há
dois anos, lançou um extraordinário Porto Colheita de 1910 ao preço de
dois mil euros a garrafa de 75 cl, para celebrar o centenário da
República.
Alguns meses depois, a
Taylor’s lançou o Scion,
um vinho com 155 anos que David Guimaraens, o enólogo da empresa,
descobriu em 2008 na aldeia de Prezegueda, perto da Régua. A Taylor’s
comprou os dois cascos existentes e lançou uma edição de luxo deste
vinho soberbo, elevando o preço por garrafa a um valor nunca visto num
Tawny desta natureza: 2500 euros.
No ano passado, a empresa
Agri-Roncão seguiu o mesmo filão e lançou o seu Roncão “Vinho do Porto
Muito Velho” ao preço de 1250 euros a garrafa. A maior parte do lote foi
comprada a um produtor da aldeia de Covelinhas, situada na margem
direita do Douro, no concelho da Régua.
A última empresa a entrar
neste negócio de “joalharia” vínica foi a Quinta do Vallado, que acaba
de colocar à venda o Adelaide Tributa Old Porto com um novo recorde de
preço: 2950 euros a garrafa de 75cl. E já se fala que a Real Companhia
Velha e o grupo Symington também se preparam para lançar edições
semelhantes.
A ideia inicial do Vallado foi lançar um vinho
especial para celebrar o bicentenário de Dona Antónia Adelaide Ferreira,
a quem a Quinta do Vallado pertenceu. O normal seria fazê-lo com um
vinho da casa, mas os vinhos do tempo da “Ferreirinha” ficaram na
empresa A.A. Ferreira, vendida em 1987 à Sogrape. O vinho mais antigo
que existia, com cerca de 70 anos, entrou no lote do novo Tawny 40 Anos
da Quinta do Vallado. A solução foi procurar vinhos velhos em alguns
produtores durienses.
Desde há séculos que perdura em muitos
produtores do Douro o costume de ir acumulando colheitas para os filhos e
netos. Muito desse vinho guardado em pipas vai-se evaporando — é a
chamada parte dos anjos. Se os vinhos não forem regularmente refrescados
(com a adição de aguardente ou a incorporação de vinhos mais novos),
vão-se concentrando, ao ponto de ficarem tipo melaço, e “avinagrando”.
Mas é essa acidez volátil, vulgarmente conhecida por “vinagrinho”, que
dá uma segunda vida ao vinho, deixando-o picante e vibrante.
Ao
Vallado foram chegando algumas amostras de vinhos com mais 100 anos,
mas só duas suscitaram o entusiasmo dos responsáveis da empresa, que
optaram por um vinho com origem no mesmo produtor de Covelinhas que
tinha vendido o Porto velho à Agri-Roncão. É provável que o vinho
original seja o mesmo, mas a Agri-Roncão juntou ao vinho de Covelinhas
um vinho próprio mais novo. A Quinta do Vallado engarrafou o vinho tal e
qual o comprou, sem qualquer correcção ou refresco.
Segundo o
produtor, de cinco pipas de 600 litros desse vinho só sobreviveram duas.
O resto evaporou-se. O Vallado comprou os dois cascos e engarrafou 1300
garrafas de 75 cl. O preço a que comprou o vinho não é conhecido, mas
sabe-se que, se vender as 1300 garrafas, o lucro rondará os 2 milhões de
euros.
É um negócio fabuloso, mas também é verdade que só uma
casa com o nome, a história e a notoriedade nacional e internacional do
Vallado pode ter a ousadia de lançar um vinho destes a quase 3000 euros a
garrafa. Comparando com o preço de muitos vinhos franceses, mais novos e
mais caros, o valor do Adelaide Tributa até nem é nenhuma
extravagância.
Afinal de contas, estamos a falar de um vinho com mais de 100 anos (o produtor suspeita que seja de 1866), engarrafado num
decanter de cristal e embalado numa caixa de madeira inspirada na nova sala de barricas da quinta. E o vinho é mesmo extraordinário.
Talvez não atinja o nível do
Scion —
a verdadeira quintessência de um Tawny velho. De qualquer modo,
comparar os dois vinhos é o mesmo que colocar Messi em comparação com
Cristiano Ronaldo. São ambos muitos bons. O Adelaide Tributa é um vinho
admirável, viscoso e amplo de sabor e com um final picante e
arrebatadoramente fresco. Ressuma a iodo, torrefacção, charuto, frutos
secos, especiarias, e quando se leva à boca é pura volúpia que se sente.
O palato entra num enorme alvoroço sensorial, esmagado pela combinação
de doçura, perfume e frescura, e assim permanece durante muito tempo.
Vale os 2950 euros que custa? Um vinho vale o que um consumidor
estiver disposto a pagar por ele. Pelos vistos, não faltam clientes para
o Adelaide Tributa. Em apenas uma semana, o Vallado já tinha vendido 31
garrafas no mercado nacional e está prestes a assinar um contrato de
venda de mais 500 garrafas para o mercado asiático.
Autor: Pedro Garcias