quinta-feira, janeiro 10, 2013

Aveleda Reserva da Família

DOC Branco Reserva 2011

Enólogo: Manuel Soares, Denis Dubordieu

Castas: Maria Gomes, Chardonnay

Cor: Citrino claro, limpo

Aroma: Elegante, predominante em frutos citrinos, toranja, frutos de polpa branca, líchias, ligeiro floral

Sabor: Bom corpo e volume, ao perfil aromático juntam notas tropicais, toque de baunilha, chá de tília, boa acidez, fresco, deixa um final de boca persistente

€: 16.99

Classificação: 17,0 Pts - Revista Paixão Pelo Vinho

Itália

Os invasores gregos chamaram-lhe "Oenotria", a terra do vinho. A Itália permaneceu embrenhada na vinicultura e hoje em dia produz mais vinho que qualquer outro país do mundo.

VITIS VINIFERA, a espécie de videira vinícula, cresce no território que é hoje a Itália desde séculos antes do nascimento de Cristo. Durante muito tempo, os arqueólogos pensaram que o cultivo da vinha tinha sido introduzido pelos Gregos nos séculos que antecederam a ascensão do Império Romano. Pensa-se hoje que algumas culturas tribais, especialmente os Etruscos, cujos domínios se estendiam ao longo da costa ocidental da península, já possuíam conhecimentos vitícolas e que os Gregos, quando chegaram, pouco mais fizeram que introduzir novas variedades de cepas. Ainda que assim seja, o nome dado pelos Gregos aos novos territórios, que haviam de se tornar Roma, foi Oenotria, cujo significado literal é "terra do vinho". Basta isto para sugerir quão importante era o papel do vinho nesta parte do mundo desde as primeiras civilizações. Na altura do apogeu do Império Romano, as origens do conhecimentos sobre o vinho eram claramente evidentes. Textos chave daquela época referem-se a colheitas particularmente boas, enquanto os vinhos de regiões específicas como Lazio, nos arredores de Roma, Toscânia, a norte, e Campânia, centrada em Nápoles, a sul, se tornaram altamente apreciados.
A expansão do Império Romano para a Europa ocidental abriu rotas comerciais movimentadas, que não só mantinham abastecidos os exércitos ocupantes, como expandiram largamente a prática da viticultura em locais como Espanha e a Gália (hoje França). Até mesmo a Bretanha, com o clima relativamente benevolente de que gozava na altura, aprendeu com os romanos como cuidar das cepas e fazer vinho, um costume que não viria a perder senão pela ocasião da dissolução dos mosteiros. Hoje em dia, em termos de volume, a Itália continua a ser, na maior parte dos anos, o maior produtor de vinho do mundo, relegando sem dificuldade a França para segundo lugar. O que detém aquele país é a falta de um sistema coerentede controlo de qualidade que possa ser respeitado por toda a gente. DOC e DOCG, são designações criadas nos anos 60, mas eram aplicadas bastante ao acaso, a quaisquer vinhos que fossem comercialmente valiosos na altura. Consequentemente, enquanto indicador geral de qualidade, elas eram na melhor das hipóteses inúteis e, na pior, enganadoras. Desde 1992, tem havido uma campanha penosamente lenta para reconstituir o sistema, conhecida como Lei Goria, nome do ex-ministro da agricultura que a instigou. Em teoria, pretendia-se apertar o cerco dentro das regiões DOC e DOCG ao submeter todos os vinhos à aprovação de um painel de provadores profissionais. A Lei Goria também providenciava a classificação dos melhores vinhos regionais com uma designação análoga a vin de pays - IGT. Tudo o resto é vino da tavola (vinho de mesa), apesar de se deve salientar que alguns dos melhores vinhos italianos têm sido feitos com um flagrante desrespeito pelas regulamentações das suas áreas. Estes vinhos são ousadamente rotulados como humildes VdT, muito à semelhança do monumental Mas de Daumas Gassac, do Sul de França, que se orgulha de ser rotulado como um simples Vin de Pays de l'Hérault.

domingo, dezembro 30, 2012

Scion, um vinho do Porto com 155 anos

“Nasceu em meados do século XIX. A admirável forma como este raro e muito velho vinho enfrentou a passagem do tempo faz da sua descoberta um marco na história do vinho. Ele é em si mesmo um pedaço de história. (.) Taylor’s Scion, um vinho como este nunca mais será feito”. É desta forma, com a tensão própria de quem anuncia algo de transcendente, bem ao jeito das promoções melodramáticas dos grandes filmes de Hollywood, que começa a apresentação de um vinho do Porto com 155 anos que a empresa Taylor’s lançou no Natal de 2011. Cada garrafa, das 1500  vendidas custa 2500 euros.

Quem a comprar, não vai pagar apenas o vinho. Pagará também o luxo do decanter de cristal soprado manualmente em que foi engarrafado, do livro que conta a história do vinho com ilustrações originais de uma artista inglesa e da caixa de teca maciça que o guarda. A Taylor’s não poupou nos pormenores para transformar cada garrafa de Scion num objecto raro, destinado sobretudo a coleccionadores e a amantes de vinhos do Porto velhos.
Se não estivéssemos perante uma operação comercial, a história do Scion merecia entrar nos anais do vinho do Porto. E, mesmo assim, talvez mereça. Ela espelha bem a riqueza escondida que há no Douro e a secular tradição de fazer tawnies, vinhos que vão envelhecendo lentamente em pipas de madeira colocadas em lugares frescos e protegidos da luz. Em 2008, David Guimaraens, enólogo da Taylor’s, pôde provar um vinho do Porto muito antigo que estava guardado em dois cascos num armazém na aldeia de Prezegueda, perto da Régua. O vinho fazia parte de uma reserva privada de uma família tradicional da região e foi passando de geração para geração. A reserva seria mais vasta, pois diz-se que Winston Churchill, amante de Porto, teria comprado um casco.
Em 2009, o único descendente directo da família morreu sem deixar filhos e os herdeiros decidiram vender o vinho. A Taylor’s adquiriu amostras de dois cascos e resolveu comprá-los. O longo tempo passado em madeira não tinha apenas concentrado o vinho, tinha-o convertido, diz a empresa, numa “essência sublime”. Nascia assim o Scion, palavra com duplo significado: designa o descendente ou herdeiro de uma família nobre e também o garfo de uma planta especialmente utilizado para a enxertia.
A Fugas pôde provar este vinho pré-filoxérico. Meio cálice apenas, que o Scion é caro, mas foi o suficiente para ficarmos a salivar e a passar longamente a língua pelos lábios, procurando eternizar a memória de tanta doçura. É um vinho naturalmente com cor de velho que, ao primeiro contacto, ainda liberta vapores etílicos intensos. Mas, à medida que estes se vão desvanecendo, o que prevalece é um bouquet sedutor e complexo, cheio de sugestões de torrefacção, charuto, especiarias negras, chocolate, melaço, madeira. Na boca, é viscoso e amplo de sabor, deixando-se quase mastigar e envolvendo o palato numa sinfonia sensorial que termina de forma surpreendentemente fresca, quase picante. Cada pequenino gole que se dá deixa um rasto interminável.
É tão concentrado e intenso que basta uma gota para desencadear uma volúpia arrebatadora. E mesmo depois de já não restarem vestígios de líquido no copo, a memória do vinho ainda continua lá, impregnada no vidro. E durante dias a fio. Basta metermos o nariz no copo e inspirarmos um pouco, para voltarmos a sentir o perfume doce e quente do Scion.
Autor: Pedro Garcias

sábado, dezembro 29, 2012

Adelaide Tributa, um Porto de «joalharia» a quase 3000 euros

Não é bem uma moda, mas há cada vez mais produtores a lançarem vinhos do Porto muito antigos a preços exorbitantes. A última casa a entrar neste negócio de “joalharia” vínica foi a Quinta do Vallado, que acaba de colocar no mercado o seu Adelaide Tributa, a 2950 euros a garrafa.
É uma espécie de corrida ao tesouro. Os vinhos finos de antigamente, os Porto que envelheciam em pipas avinhadas e passavam de geração para geração, estão a ser comprados por algumas empresas e a ser comercializados em edições luxuosas com ganhos colossais. Um verdadeiro negócio da China que tem a virtude de ajudar ao reforço do prestígio do vinho do Porto. São os vinhos raros e caros que fazem a fama de uma região.
O precursor deste negócio foi a casa Andressen, que, há dois anos, lançou um extraordinário Porto Colheita de 1910 ao preço de dois mil euros a garrafa de 75 cl, para celebrar o centenário da República.
Alguns meses depois, a Taylor’s lançou o Scion, um vinho com 155 anos que David Guimaraens, o enólogo da empresa, descobriu em 2008 na aldeia de Prezegueda, perto da Régua. A Taylor’s comprou os dois cascos existentes e lançou uma edição de luxo deste vinho soberbo, elevando o preço por garrafa a um valor nunca visto num Tawny desta natureza: 2500 euros.
No ano passado, a empresa Agri-Roncão seguiu o mesmo filão e lançou o seu Roncão “Vinho do Porto Muito Velho” ao preço de 1250 euros a garrafa. A maior parte do lote foi comprada a um produtor da aldeia de Covelinhas, situada na margem direita do Douro, no concelho da Régua.
A última empresa a entrar neste negócio de “joalharia” vínica foi a Quinta do Vallado, que acaba de colocar à venda o Adelaide Tributa Old Porto com um novo recorde de preço: 2950 euros a garrafa de 75cl. E já se fala que a Real Companhia Velha e o grupo Symington também se preparam para lançar edições semelhantes.
A ideia inicial do Vallado foi lançar um vinho especial para celebrar o bicentenário de Dona Antónia Adelaide Ferreira, a quem a Quinta do Vallado pertenceu. O normal seria fazê-lo com um vinho da casa, mas os vinhos do tempo da “Ferreirinha” ficaram na empresa A.A. Ferreira, vendida em 1987 à Sogrape. O vinho mais antigo que existia, com cerca de 70 anos, entrou no lote do novo Tawny 40 Anos da Quinta do Vallado. A solução foi procurar vinhos velhos em alguns produtores durienses.
Desde há séculos que perdura em muitos produtores do Douro o costume de ir acumulando colheitas para os filhos e netos. Muito desse vinho guardado em pipas vai-se evaporando — é a chamada parte dos anjos. Se os vinhos não forem regularmente refrescados (com a adição de aguardente ou a incorporação de vinhos mais novos), vão-se concentrando, ao ponto de ficarem tipo melaço, e “avinagrando”. Mas é essa acidez volátil, vulgarmente conhecida por “vinagrinho”, que dá uma segunda vida ao vinho, deixando-o picante e vibrante.
Ao Vallado foram chegando algumas amostras de vinhos com mais 100 anos, mas só duas suscitaram o entusiasmo dos responsáveis da empresa, que optaram por um vinho com origem no mesmo produtor de Covelinhas que tinha vendido o Porto velho à Agri-Roncão. É provável que o vinho original seja o mesmo, mas a Agri-Roncão juntou ao vinho de Covelinhas um vinho próprio mais novo. A Quinta do Vallado engarrafou o vinho tal e qual o comprou, sem qualquer correcção ou refresco.
Segundo o produtor, de cinco pipas de 600 litros desse vinho só sobreviveram duas. O resto evaporou-se. O Vallado comprou os dois cascos e engarrafou 1300 garrafas de 75 cl. O preço a que comprou o vinho não é conhecido, mas sabe-se que, se vender as 1300 garrafas, o lucro rondará os 2 milhões de euros.
É um negócio fabuloso, mas também é verdade que só uma casa com o nome, a história e a notoriedade nacional e internacional do Vallado pode ter a ousadia de lançar um vinho destes a quase 3000 euros a garrafa. Comparando com o preço de muitos vinhos franceses, mais novos e mais caros, o valor do Adelaide Tributa até nem é nenhuma extravagância.
Afinal de contas, estamos a falar de um vinho com mais de 100 anos (o produtor suspeita que seja de 1866), engarrafado num decanter de cristal e embalado numa caixa de madeira inspirada na nova sala de barricas da quinta. E o vinho é mesmo extraordinário.
Talvez não atinja o nível do Scion — a verdadeira quintessência de um Tawny velho. De qualquer modo, comparar os dois vinhos é o mesmo que colocar Messi em comparação com Cristiano Ronaldo. São ambos muitos bons. O Adelaide Tributa é um vinho admirável, viscoso e amplo de sabor e com um final picante e arrebatadoramente fresco. Ressuma a iodo, torrefacção, charuto, frutos secos, especiarias, e quando se leva à boca é pura volúpia que se sente. O palato entra num enorme alvoroço sensorial, esmagado pela combinação de doçura, perfume e frescura, e assim permanece durante muito tempo.
Vale os 2950 euros que custa? Um vinho vale o que um consumidor estiver disposto a pagar por ele. Pelos vistos, não faltam clientes para o Adelaide Tributa. Em apenas uma semana, o Vallado já tinha vendido 31 garrafas no mercado nacional e está prestes a assinar um contrato de venda de mais 500 garrafas para o mercado asiático.

Autor: Pedro Garcias