sexta-feira, outubro 19, 2012

Os Instrumentos de prova

De que "instrumentos" nos servimos para provar um vinho? Será dos órgãos dos sentidos? Por muito estranho que nos pareça a resposta é: não propriamente. Na verdade o provador não utiliza os olhos, o nariz ou a boca como instrumentos de medição, mas sim a cabeça, ou seja, o cérebro com todas as distorções que isso comporta. As experiências pessoais e culturais são parte integrante do modo de pensar e agir e, portanto, de percepcionar. Tal significa que durante uma prova de vinhos cada um se comporta de forma diferente.
As características sensoriais de um vinho, as sensações de doce ou frutado, por exemplo, não são realmente propriedade do vinho, mas o fruto da sua interacção com o provador, através dos seus sentidos. Portanto, há uma grande distância entre o produto, com todas as suas qualidades, e a percepção que dele se pode obter. A representação das sensações é pessoal e limitada por muitos factores.

Factores neurológicos
A transformação da realidade inicia-se com a acção dos órgãos sensoriais. Existem desde logo fenómenos que não se conseguem captar. A visão percepciona uma parte das ondas electromagnéticas sob a forma de cores, mas não os raios X, ultravioletas ou os infravermelhos. A audição humana pode captar ondas sonoras variáveis entre 20 a 20 mil ciclos de segundo (Hertz), mas não os ultra-sons que são ondas acústicas com frequência superior.

Factores individuais
Cada ser humano acumula, uma serie de experiências que são parte integrante do seu modo de percepcionar a realidade. Quando sentimos o aroma de um vinho, o seu reconhecimento, a definição das suas características e a avaliação da sua qualidade não podem realizar-se se não tiver tido determinadas vivências. Falamos de percepções simples e genéricas, não é possível reconhecer o amargo de um vinho se nunca se teve a experiência de saber o que é o amargo e em que contexto está presente. Entre os factores individuais encontram-se perturbações como o daltonismo, a anosmia ou a hiposmia.

Factores sociais
O mais importante dos factores sociais é a linguagem. Para compreender melhor este conceito basta ter presente o facto de conseguirmos ver muitas tonalidades, mas apenas identificarmos e descrevermos algumas, porque não possuímos palavras para designar todas individualmente. Assim, cada um de nós pode percepcionar uma ampla porção do universo, ainda que a informação que consiga transmitir seja reduzida.