quarta-feira, março 06, 2013

Quinta da Ervamoira

Um Manto de Vinha

Em ondas de verde, escarlate e dourado, feita de cachos de bagas suculentas, expande-se a paisagem duriense, com o rio ao fundo serpenteando, tortuoso, por arribas e vertentes alcantiladas. É neste cenário fértil de assimetrias e contrastes, nesta fecunda epopeia das populações para extrair da terra inculta e dos solos áridos e rochosos, através de anos e anos de labuta e fadiga, O Vinho do Porto, que está localizada a Quinta da Ervamoira, um lugar consagrado à vinha e aos seus frutuosos rebentos.

Situada na região do Douro, sub-região do Douro Superior, na freguesia da Muxagata, Vila Nova de Foz Côa, no Vale do Côa, numa encosta pouco inclinada da excepcional microclima, a Quinta da Ervamoira dá testemunho de uma história repleta de peripécias e polémicas - questionada pelo recurso a métodos não tradicionais de plantio do vinhedo duriense, ameaçada de submersão com a construção da barragem do Côa e apenas salva pela descoberta das gravuras rupestres do Vale, a Quinta e os seus preciosos produtos sobreviveram para poder continuar a relatar as suas crónicas de labor e sucesso. O início da gesta produtiva de Ervamoira remete para 1974, quando José António Ramos Pinto Rosas, então administrador da Casa Ramos Pinto, em demanda de um terreno pouco acidentado que permitisse a mecanização, dado que já nessa época o escasso e elevado custo de mão-de-obra no Douro se fazia sentir, encontrou e adquiriu a Quinta de Santa Maria, rebaptizada de Quinta de Ervamoira. Dois anos mais tarde, com o auxílio do sobrinho João Nicolau de Almeida, José Rosas lançou mãos ao projecto de analisar e seleccionar as cinco melhores castas, pensando já não apenas no Vinho do Porto, mas também no Vinho de Mesa. Este trabalho conjunto, objecto de controvérsias pela originalidade, tornou Ervamoira num projecto-piloto, a primeira quinta do Douro a ser plantada ao alto e por talhões, correspondendo cada parcela de terreno a uma casta diferente, assim evitando-se a mistura de espécies vinícolas na mesma vinha. Estendendo-se em manto, como se de um pomar se tratasse, Ervamoira possuí, nos seus 150 hectares de área de vinhedos, 450 000 pés de videira com uma média de 15 anos de idade, 10% dos quais são castas brancas e 90% de castas Tinta Barroca, Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinta da Barca. Graças ao contributo de João Nicolau de Almeida, co-autor da selecção das cinco castas recomendadas para a região do Douro, introdutor da mecanização da vinha ao alto nessa mesma região vitícola e responsável pelo desenvolvimento das vinificações dos Vinhos do Porto e de Mesa, além de criador de vinhos como o Duas Quintas e o Bons Ares, a Quinta da Ervamoira é actualmente uma das mais belas e modelares propriedades da região do Douro, com os seus báquicos produtos a serem apreciados e elogiados tanto em território nacional como além fronteiras. A aposta de João Nicolau de Almeida na irrigação de vinhas em Ervamoira, apoiado em estudos científicos desenvolvidos em parceria com instituições nacionais e internacionais, é apontada como uma importante contribuição para o desenvolvimento da viticultura duriense. Primeira quinta vinhateira  usufruir do título de Património da Humanidade, Ervamoira não esquece os aspectos culturais da região - no Museu, instalado desde 1997 na recuperada casa de xisto do caseiro, exibem-se vários núcleos de saber ligados ao local e à actividade vitivinícola do Douro: Património Natural Etnográfico, história da casa Ramos Pinto, as Quintas e a Vitivinicultura do Douro Superior. Para que a história desta árdua e laboriosa terra permaneça na memória, enquanto os vinhos, esses, exalam os seus ânimos feitos de infindáveis afãs, da porosidade do xisto e da rudeza líquida do rio.